Há um século, os japoneses chegaram ao Vale do Ribeira, trazidos pela Kaigai Kogyo Kabushiki Kaisha (KKKK), empresa colonizadora que firmou contrato com o governo paulista para a abertura de lotes em Iguape, Registro e Sete Barras. Em Registro, a KKKK montou sua sede, contando com toda a infraestrutura de apoio aos colonos.

Desta vez os imigrantes aportavam como proprietários. Em seus lotes, puderam construir as residências ao seu modo, exercendo uma liberdade cultural que os demais imigrantes não puderam ter nas fazendas paulistas de café. A casa japonesa revelou técnicas de construção inéditas. Eram projetos que envolviam uma elaborada carpintaria.

A estrutura da casa é toda modular, em madeira, construída a partir da medida do ken, ou tatame. As peças são de encaixe, sem utilização de pregos, e seguem um projeto numerado. Podem ser desmontadas, transferidas do terreno, e remontadas novamente. O preenchimento das paredes é de barro, semelhante ao pau a pique brasileiro, e com um acabamento caprichoso de argamassa.

Inicialmente, os projetos sofreram com o novo ambiente. As casas tiveram suas frentes voltadas para o sul, como era costume no Japão, que fica no hemisfério norte. Os telhados foram superdimensionados, esperando o peso da neve que nunca caiu.

O empreendimento não atingiu seus objetivos, pois o café não se adequou à região do Vale do Ribeira. O arroz e o chá também não foram suficientes para garantir a prosperidade da colônia. Com a falência da KKKK e a repressão aos japoneses durante a Segunda Guerra, os colonos foram incorporados ao meio urbano e as técnicas construtivas foram deixadas de lado.

A série Habitar/Habitat do SESCTV acompanhou o trabalho do Iphan – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que a partir de 2007 percorreu a região, tombando as construções que resistiram ao tempo. São casas simples, outras são sobrados, fábricas de chá, construções testemunhas de uma época, que agora passam por recuperação.

Neste episódio: Carmem Akemi Kawano (escritora), Rubens Shimizu (agrônomo), Hideo Nasuno (cirurgião dentista), Rogério Bessa (arquiteto), Victor Hugo Mori (arquiteto), Jéssica Shimodaira (estudante), Clarisse Ribeiro (estudante), Jean Hanaoka (estudante), Toninho Sarasá (conservador e restaurador), Kuniei Kaneko (presidente do Bunkyo), Toshiaki Yamamura (presidente da União Cultural), Antonio dos Anjos (funcionário público), Katsumi Omuro (aposentado).